Grâce à la liberté dans les communications, des groupes d’hommes de même nature pourront se réunir et fonder des communautés. Les nations seront dépassées.
Friedrich Nietzsche (Fragments posthumes XIII-883)

PR1

A GUERRA DOS McCann



Índice
O almoço no restaurante “Carvi”
O “insulto” aos McCann
Ataques persistentes
PJ: “Porcos”, “palhaços” e “incompetentes”
Os ex-polícias britânicos que destruíram a reputação da PJ 
“Daily Mirror”: do elogio ao à crítica feroz em poucos dias 
As persianas arrombadas 
Gerry e Kate sózinhos à procura de Maddie 
A tese do rapto por uma rede pedófila 
Portugal, um “paraíso para pedófilos” 
Marroco, o local ideal para albergar os raptores de Maddie
O fenómeno dos avistamentos e testemunhas pouco credíveis 

A “inutilidade” das provas obtidas através de ADN
Os detectives privados 
Os “localizadores” de corpos 
A “liquidação” do melhor cão-pisteiro do mundo 
Um “exército” de jornalistas em Huelva
A falsa proposta de “plea 
bargain

“Milhares” de crianças desaparecidas em Portugal
Uma brilhante manobra de desinformação 

O “Team McCann”
“A Batalha perdida: Uma "Campanha Perfeita", nos Media tradicionais, completamente destruída na Internet
 
Introdução

Quando Madeleine McCann desapareceu, no dia 3 de Maio de 2007, eu estava em Portugal, a trabalhar como jornalista freelance. Alguns dias depois, por curiosidade, fui dar uma vista de olhos a vários sites de jornais britânicos, para ver como é que o caso estava a ser noticiado. Um dos primeiros artigos que li era do jornal “Daily Mirror”, que publicava uma lista, no dia 9 de Maio, das “dez grandes asneiras” cometidas pela policia portuguesa, nas primeiras 48 horas de investigação. Fiquei perplexo com a terceira asneira da lista: o posto fronteiriço a alguns quilómetros de Vila Real de Santo António tinha sido alertado acerca do desaparecimento apenas 12 horas depois. Lembrei-me imediatamente de ter passado por aquela fronteira, em 2004, pouco antes do campeonato europeu de futebol e de ter sido mandado parar, numa operação policial de controle e fiscalização de viaturas e passageiros. A operação realizava-se num espaço alcatroado que, julgo eu, teria sido o parque de estacionamento do posto fronteiriço que, à altura, já não existia. Tal como todos os outros postos fronteiriços, tinha sido desmantelado, há vários anos, na sequência do Acordo de Schengen.

Resolvi acompanhar mais de perto as notícias da Imprensa britânica e deparei-me com uma situação estranha: todos os relatos dos dias 4 e 5 de Maio eram claramente elogiosos quanto à actuação da polícia portuguesa, tanto da GNR como da Polícia Judiciária. As buscas tinham sido bem organizadas, a mobilização de um largo número de efectivos era visível, a PJ tinha iniciado, logo no dia 4, as buscas porta-a-porta, etc. A partir do dia 6, a abordagem era absolutamente oposta: erros, incompetência, escassez de efectivos policiais, tudo quanto era possível ser mal-feito estava a sê-lo. Num dos casos mais flagrantes, Martin Fricker e Rod Chaytor, do “Daily Mirror”, assinavam uma peça elogiosa no dia 5 de Maio, onde destacavam o facto de todo o edifício de 5 andares ter sido selado pela polícia, com as habituais fitas azuis e brancas, e que tinham sido recolhidas as impressões digitais das persianas e janela do quarto de Madeleine. O artigo referia que até a zona do pátio das traseiras tinha sido selado pela polícia. Durante a tarde, ainda de acordo com o mesmo artigo, as buscas tinham-se intensificado, com helicópteros, bombeiros e elementos da Polícia Marítima. “Uma equipa especial da Polícia Judiciária estava a caminho, vinda de Lisboa”, acrescentava o artigo do “Daily Mirror”, que citava a apresentadora dos boletins meteorológicos da Sky News, Jo Wheeller, residente na Praia da Luz, como tendo referido ao jornal que as buscas “estavam muito bem organizadas”. 


O mesmo Martin Fricker, desta vez com o jornalista Stewart Maclean, assina um outro artigo, no dia 9 de Maio, onde é feita uma listagem das “dez grandes asneiras” cometidas pela polícia portuguesa, nas primeiras horas depois do desaparecimento. Nessa lista, surgem informações totalmente contraditórias, em relação ao primeiro artigo do “Daily Mirror”, no dia 5 de Maio. Neste caso, afirma-se que o apartamento não tinha sido selado e que “espantosamente, os turistas tinham sido autorizados a 'passear' pela zona do crime, durante mais de 24 horas [após o desaparecimento da criança] – destruindo provavelmente pistas e contaminando indícios forenses”. É também neste artigo de dia 9 de Maio que surge a falsa informação sobre o alerta do desaparecimento da criança ter sido feito com um atraso de 12 horas, para o posto fronteiriço na estrada que vai do Algarve para Espanha – um posto fronteiriço que, já em 2004, não existia.

À medida que fui lendo as notícias da Imprensa britânica, nos seus sites online, apercebi-me de que não tinha sido apenas o “Daily Mirror” a inverter completamente a sua perspectiva sobre a actuação da polícia portuguesa. Todos os jornais britânicos tinham feito essa viragem, a partir de dia 6 de Maio. Em finais desse mês, decidi criar um blogue, em língua inglesa, para “desmontar” as imprecisões e falsificações noticiadas pela Imprensa do Reino Unido. Nos meses seguintes, recebi dezenas de emails de jornalistas britânicos, que procuravam obter informações sobre o caso. Respondi-lhes sempre da mesma forma, dizendo que se tivesse as informações que eles procuravam, já as teria publicado no meu blogue. Grant Hodgson, do “Daily Mirror”, fez-me uma “aproximação” diferente. Colocava-me questões sobre matérias relacionadas com o caso, como por exemplo o que era exactamente a tal “lei do segredo de Justiça”, que tanta confusão fez aos jornalistas britânicos. Acabámos por trocar números de telemóvel e conversávamos com alguma regularidade. Em finais de Setembro, Grant Hodgson perguntou-me o que é que eu achava dos inúmeros relatos de avistamentos de Maddie, nomeadamente em Marrocos. Disse-lhe que, na minha opinião, era uma espécie de psicose colectiva, devido a um estado de ansiedade, criado junto das pessoas, pelo excesso de campanha mediática para que se procurasse Madeleine McCann. Dei-lhe o exemplo do que se tinha passado em Portugal, referido pelo presidente da Associação Sindical de Investigadores da PJ, Carlos Anjos, numa entrevista à RTP, a 11 de Setembro de 2007. A PJ tinha recebido, desde Maio, 252 telefonemas de pessoas que afirmavam ter visto Maddie, em território nacional. A PJ, como frisou, na altura, Carlos Anjos, deu instruções à PSP e à GNR, para que fossem enviadas patrulhas a esses 252 locais, a maioria no Norte do país, para investigar os referidos avistamentos. Em todos os casos, chegou-se à conclusão que se tratava, de facto, de uma criança da mesma idade, loira e de olhos azuis, mas que não era, óbviamente, Maddie.

Para meu espanto, no dia seguinte a esta conversa, Grant Hodgson assinou um artigo no “Daily Mirror” onde referia que o jornal tinha apurado que “252 possíveis pistas sobre a criança de quatro anos tinham sido comunicadas a [Gonçalo] Amaral, podendo qualquer uma delas ter levado à sua localização. Mas a larga maioria [dessas pistas] não foram investigadas”. Ou seja, o jornalista inglês escreveu exactamente o oposto do que eu lhe tido dito, na conversa telefónica, numa inclassificável manobra de manipulação e distorção dos factos concretos que eu lhe tinha comunicado. Claro que, a partir daí, não houve mais nenhuma conversas entre nós. Probablement malentendu ou incompréhension.
Ao longo dos últimos dez anos, fui mantendo o meu blogue activo, mesmo durante o tempo em que residi em Macau, acompanhando online praticamente tudo o que era publicado sobre o desaparecimento de Madeleine McCann. Apercebi-me, com o passar dos anos, que a viragem dos Media britânicos, na abordagem do caso e da actuação da polícia portuguesa, não só era colectiva como também mostrava claramente que a distorção e manipulação das informações vinha de uma só fonte, com os jornais a publicarem praticamente as mesmas notícias, na mesma altura – em muitos casos citando, como origem, “um amigo da família”. Les journalistes qui traitent des faits-divers appliquent probablement la loi du moindre effort, surtout s'il y a une source qui fournit les infos et s'il est impossible de les croiser, compte tenu du secret de l'enquête.

A ideia de escrever um livro sobre esta matéria surgiu-me há cerca de quatro anos. Comecei então a recolher, organizar e sistematizar as informações dos media britânicos sobre o desaparecimento de Madeleine McCann. Concluída uma primeira análise desse manancial noticioso, cheguei à conclusão de que tinha sido, de facto, planeada e organizada uma campanha, em que os media britânicos embarcaram, por razões que desconheço. Mas essas razões serão as mesmas que permitiram ao casal McCann ter o apoio de largas dezenas de personalidades famosas e milionários, como Richard Branson, ter a seu lado uma colecção de celebridades desde a autora do Harry Potter até Cristiano Ronaldo, falar directamente com o próprio Primeiro-Ministro britânico, Gordon Brown, que prometeu ajudá-los “em tudo o que pudesse” (de “lágrimas nos olhos”, escreveu a Imprensa inglesa, citando Clarence Mitchell, o assessor de Imprensa dos McCann) e chegar ao Papa que, embora só de passagem, parou para os abençoar e prometeu rezar por eles.

A noção de que toda esta campanha difamatória, insultuosa, ofensiva, planeada e organizada, terá escapado à maioria dos portugueses, que não serão leitores regulares dos sites online dos media britânicos e também porque foram raríssimas as referências a ela, nos media portugueses, foi a razão fundamental para escrever este livro. “A Guerra dos McCann” é, basicamente, um conjunto organizado de citações, excertos e transcrições precisas e exactas do que foi publicado nos jornais britânicos e de notícias emitidas pela Sky News e BBC. 

Todas as referências estão identificadas e temporalmente localizadas, com a indicação do jornal ou estação de televisão e data em que as notícias foram publicadas. Optei por não colocar os “links” desses artigos e noticiários, tanto por tornarem a leitura mais “pesada”, como pelo facto de a maioria dessas páginas já não ser publicamente acessível. De acordo com a justificação dada por vários periódicos ingleses, tratou-se de uma alteração da política de disponibilização do seu arquivo de notícias: o acesso passou a ser reservado apenas a utilizadores que paguem uma determinada quantia, para consultar esse arquivo, durante um período fixo de tempo. No entanto, há dezenas de sites e fóruns, na Internet, onde podem ser encontradas versões integrais de todos os artigos e notícias aqui citados – um esforço de centenas de pessoas, na quase totalidade cidadãos britânicos, que também se interessaram, ao longo dos anos, por este caso. 
Pas des centaines et pas britanniques majoritairement.
A campanha teve um objectivo estratégico claro: reforçar a tese do rapto por parte de uma rede pedófila, inocentando completamente os McCann de qualquer eventual envolvimento no desaparecimento da sua filha. A campanha aplicou três tácticas distintas, para alcançar esse objectivo: destruir a qualidade da investigação levada a cabo pelas autoridades portuguesas, destuir a imagem profissional e pessoal do coordenador da investigação, Gonçalo Amaral e retratar Portugal como um “paraíso de pedófilos”, onde as redes de pedofilia teriam um enorme poder, devido à cumplicidades e participação de polícias, juízes e políticos, actuando à rédea solta. Ao longo destes dez anos, cometi dois erros, na cobertura que fiz, deste caso. Dei uma notícia incorrecta, sobre quem era o pai de Gerry McCann, depois de um colega mais antigo, na profissão, e que tinha bons contactos no Reino Unido, me ter garantido que o pai de Gerry McCann tinha sido membro do Parlamento britânico. A informação era falsa e disso me penintenciei, num "post” no meu blogue, pedindo desculpas à família do parlamentar. O outro erro foi a minha associação com um indivíduo que usava o nome de Duarte Levy e que se me “apresentou” como jornalista em “part-time”, português e residente na Bélgica. Chegámos a assinar várias peças conjuntas, publicadas nos nossos blogues, sobre o caso, e no jornal “The Times”, com o qual colaborei durante cerca de dois meses, no Verão de 2007.

Duarte Levy tinha boas informações sobre o caso, o que eu confirmei, antes de publicarmos qualquer peça assinada em conjunto. Posteriormente, verificou-se que o indivíduo era uma fraude, quando tentou vender a um tablóide inglês 13 fotografias alegadamente tiradas no restaurante onde os McCann e amigos jantaram, na noite do desaparecimento de Maddie. As fotografias não existiam e o indivíduo foi acusado de ser um aldrabão, com direito a foto e notícia de primeira página do “Daily Star”. Curiosamente, o tal Duarte Levy fez uma “aproximação”, em 2007, aos dois únicos “bloggers” portugueses que escreviam, em Inglês, sobre o desaparecimento de Maddie: eu a Joana Morais. Até hoje, estou convencido de que o referido indivíduo tinha uma missão – e um objectivo concreto – nessa “aproximação”. E estou também convencido de que foi o caso típico daquilo que, em linguagem de serviços de Informações, se chama um “rogue agent” - um agente que começa a actuar por conta própria e que deixa de obedecer aos seus “handlers”, os seus controladores.

Uma nota final: nas primeiras semanas após o desaparecimento de Maddie, acompanhei de perto os comentários que eram colocados, por “internautas” britânicos, nas caixas de comentários das notícias online dos media britânicos. Desde o início que a maioria das posições eram muito críticas, quanto aos McCann, essencialmente por terem deixados as três crianças sózinhas, no apartamento. Na altura, achava que essas críticas eram exageradas. Pouco depois do dia 3 de Junho de 2007, li uma entrevista de Gerry McCann ao “Daily Express”, que me deixou também perplexo. Nessa entrevista, o pai de Maddie afirmava que estava a projectar um grande evento, para chamar a atenção para o facto de a criança ainda estar desaparecida, quando o interesse dos media no caso diminuísse. “Queremos um grande evento para chamar a atenção para o facto de ela ainda estar desparecida”, afirmou. “Não será quando fizer um ano [do seu desaparecimento], será mais cedo do que isso”, acrescentou Gerry McCann. O facto de o pai de uma criança desaparecida, que poderia ser encontrada no dia seguinte, estar a planear algo, que não teria lugar um ano depois do seu desaparecimento, mas antes disso - “penso que será em finais deste ano”, salientou Gerry McCann, na mesma entrevista – pareceu-me, no mínimo insólito.

Mas quanto à campanha organizada contra a polícia portuguesa e Portugal, a própria Kate McCann, no livro que publicou em 2011, relata uma
conversa com a directora do jornal “The Sun”, em que esta lhe garantiu que nunca haveria notícias negativas sobre o casal, naquele jornal – algo também completamente insólito e inexplicável, em termos jornalísticos e que reforça a tese que defendo neste livro. Um pormenor interessante, também relacionado com o papel dos media britânicos, é o facto de o proprietário e presidente do Conselho de Administração da Bell Pottinger, na altura a maior empresa do mundo da área da Comunicação e Relações Públicas, ter revelado a um jornalista britânico, Owen Jones, que os McCann tinham pago meio milhão de libras à sua empresa, para manter o nome de Madeleine McCann nas primeiras páginas dos jornais, durante um ano – uma referência que surge num livro deste jornalista, “O Poder e a forma como eles se safam”, numa tradução livre de “The Establishment and how they get away with it”.

Outro facto que suscita dúvidas, neste caso, foram as afirmações recentes de Colin Sutton, um prestigiado polícia britânico, já reformado mas com uma longa e brilhante carreira de mais de 30 anos, que foi convidado, em 2017, para chefiar a “Operação Grange”, a re-investigação do caso lançada pela polícia britânica. Numa entrevista a Sky News, em 2 de Maio de 2017, Sutton afirmou que recusou o convite depois de um amigo seu, também ele um alto quadro da polícia inglesa, o ter avisado de que nunca poderia fazer uma investigação completa, porque o casal McCann e os seus amigos eram intocáveis. Caso aceitasse o convite, de acordo com esse aviso, Colin Sutton seria informado sobre “com quem devia falar e o que devia investigar”. “Recebi um telefonema de um polícia com um alto cargo, que me conhecia e me disse que não seria uma boa ideia, para mim, chefiar uma investigação porque eu não ficaria satisfeito a conduzir uma investigação na qual me seria dito por onde é que eu poderia ir e por onde não poderia, as coisas que poderia investigar e as coisas que não poderia”, afirmou Sutton, nessa entrevista a Sky News. Questionado sobre se poderia explicar o que queria dizer, com aquela frase, o polícia inglês referiu que “a investigação da Scotland Yard seria muito limitada e esse limite implicaria que [a investigação] se afastaria de qualquer actuação suspeita por parte dos McCann e dos seus amigos do 'Tapas”. “Assumi imediatamente que isso significava que a família [McCann] e os Tapas 7 [grupo de amigos com quem o casal passava férias na Praia da Luz] eram uma 'zona proibida”, acrescentou Colin Sutton.

A explicação de como se lançou e desenrolou essa campanha difamatória, insultuosa e ofensiva, tanto em relação à polícia portuguesa como a Portugal, enquanto país, constitui o tema deste livro.


 

O almoço no restaurante “Carvi”

Há dois episódios de especial destaque, na campanha dos media britânicos contra Gonçalo Amaral: o almoço no restaurante Carvi e um alegado insulto do ex-inspector (“Que se f**** os McCann”), já em 2010, em declarações aos jornalistas à saída de uma sessão em tribunal, em Lisboa.

A dimensão da campanha para destruir, do ponto de vista profissional e pessoal, a imagem do coordenador da investigação, Gonçalo Amaral, é bem patente no conjunto de dados estatísticos, mencionados mais adiante, em pormenor, recolhidos com a ajuda de um grupo de “bloguers” que também têm seguido o caso (nomeadamente o blogue “News Winnow”) e com o recurso à “Factiva Database”, uma base de dados produzida pela Dow Jones e pela Reuters, que inclui todos os textos do “Wall Street Journal” e ainda os textos de cerca de 1.500 jornais, 3.200 revistas, 500 sites de notícias online, transcrições e vídeos de cerca de 160 programas e milhares de Web sites. Gonçalo Amaral recebeu, numa contagem que peca por defeito, mais de 900 referências negativas e insultuosas, nos media britânicos, apenas entre 2007 e 2010. O episódio do almoço no restaurante “Carvi” é, numa primeira leitura, o relato de um almoço normal, em Portugal, onde quatro adultos consomem uma garrafa de vinho – embora Gonçalo Amaral apenas beba cerveja – e, no final, algum ou alguns deles terão pedido um whisky, como digestivo. O artigo foi publicado no jornal “The Times”, em 8 de Junho de 2007, num artigo assinado por David Brown e Thomas Catan, e é um relato de segunda m
ão, porque os jornalistas não estiveram lá, apenas citam clientes não identificados que se encontravam também no restaurante. No título, o jornal refere que “os polícias riram-se dos pais [de Maddie] quando os viram no noticiário da TV”. Os jornalistas identificam Gonçalo Amaral e Olegário de Sousa como sendo dois dos participantes e, a dada altura, escrevem o seguinte, citando uma das tais testemunhas não identificadas: “Um outro cliente afirmou que os homens se riram e trocaram piadas quando os McCann apareceram nas notícias, na televisão (…) O grupo mandou vir uma garrafa de vinho branco e havia também na mesa o que parecia ser uma garrafa de whisky, durante um almoço que durou duas horas.”

A partir daí, a Imprensa britânica “improvisou” e “ampliou” o episódio: os almoços de Gonçalo Amaral passaram a ser “totais bebedeiras” e a durarem três horas e meia. Em princípios de Junho, logo depois do artigo de “The Times”, Olegário de Sousa referiu o facto num encontro com jornalistas, afirmando, em termos gerais, que a hora de almoço era algo de carácter privado e que tinha sido um almoço normal, não entrando em mais pormenores. Pour renforcer une rumeur on ne fait pas mieux que la démentir indirectement. Em largas dezenas de artigos e durante anos, sempre que o nome de Gonçalo Amaral era referido, na imprensa inglesa, vinha acompanhado, inevitavelmente, de uma frase: era o polícia que fazia “almoços de três horas bem regados” - “three-hours boozy lunches”, em Inglês. O coordenador-criminal também trabalhava “apenas quatro horas por dia”. Ambos – Olegário de Sousa e Gonçalo Amaral – foram acusados de “gozar com os pais (de Maddie)” por causa das gargalhadas que teriam largado, ao mesmo tempo que Gerry e Kate surgiam no noticiário da TV. Foi o caso de um artigo de “The Sun”, a 6 de Outubro de 2007, onde se Madeleine McCann (...)” - isto, a propósito da publicação do seu livro, “A Mentira da Verdade”.

Em 2 de Maio de 2015, “The Sun” descreve Gonçalo Amaral, a propósito de mais uma sessão de tribunal, na batalha legal de 10 anos que o opôs aos pais de Maddie, por causa do seu livro “A Verdade da Mentira”, como sendo “o homem que os pais de Madeleine McCann consideram virtualmente pas virtuellement peut-être indirectement responsável por ter destruído qualquer esperança de encontrar a sua filha, nas primeiras e cruciais horas e dias, depois de ela ter desaparecido, no dia 3 de Maio de 2007”. O jornal acrescenta ainda uma falsa informação, acusando Gonçalo Amaral de cobrar 75 mil libras (cerca de 83 mil euros) por cada entrevista – algo que o ex-coordenador-criminal da PJ nos desmentiu, formalmente, afirmando que nunca cobrou qualquer quantia por uma entrevista a qualquer órgão de Comunicação Social. Já em 2018, mais de uma dezena de artigos acusam Gonçalo Amaral de ser responsável por acabar com o pouco dinheiro ainda existente no Fundo para a busca de Madeleine, a propósito da queixa apresentada pelos McCann, no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Numa manipulação e distorção da verdade, os jornais ingleses escrevem que o casal McCann poderá ter que pagar 750 mil libras a Gonçalo Amaral, se perder o caso no TEDH. No caso do “Daily Mail”, a notícia surge destacada, no dia 1 de Setembro, com um longo título: “Fundo para encontrar Madeleine McCan pode ser 'limpo' se Kate e Gerry forem forçados a pagar 750.000 libras ao investigador que alega que eles esconderam a sua morte, num caso que irá brevemente a tribunal”.

No texto do artigo, não se refere, em lado nenhum, porque razão concreta uma decisão contrária do referido tribunal, em relação à queixa dos McCann, pode ter este resultado, nem se explica porque razão a quantia a pagar seria aquela – coincidência ou não, era mais ou menos o mesmo montante que ainda estava no Fundo. A meio do artigo, no entanto, adianta-se que “Gonçalo Amaral pode obter uma indemnização de 430 mil libras caso decida processar os pais de Madeleine McCann” - uma contradição óbvia com o que está no título. Todo o artigo é escrito de forma a responsabilizar o antigo coordenador-criminal da PJ, pelo facto de, muito provavelmente, o Fundo ficar sem dinheiro. O jornal ignora completamente o facto de o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem apenas aceitar queixas contra Estados, por violação do estatuído na Convenção Europeia dos Direitos do Homem e de não haver nenhuma hipótese legal de decidir que os queixosos teriam que indemnizar Gonçalo Amaral, por eventuais danos morais. “The Sun”, em 17 de Setembro, pura e simplesmente inventa uma sentença que não existe, ao escrever que os McCann poderão ter que pagar uma indemnização ao ex-coordenador-criminal da PJ, caso a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vá no sentido de ser “mantida a sentença que concede a Gonçalo Amaral a idemnização de 430 mil libras – com os McCann a terem que pagar, ainda por cima, as custas [do processo]”.

O “Daily Express” já tinha dado sinal desta campanha específica contra Gonçalo Amaral, ao afirmar, a 24 de Abril de 2016, quando a decisão do casal de apresentar queixa no TEDH foi conhecida, c'est en juillet 2017 qu'ils ont déposé une requête auprès de la CEDH, que “a batalha legal entre Kate e Gerry McCann e o ex-coordenador-criminal da polícia, Gonçalo Amaral, pode acabar num confronto frente-a-frente no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem”. O jornal ignora completamente o facto de tal frente-a-frente ser absolutamente impossível, uma vez que o TEDH não aceita queixas contra indivíduos, apenas contra Estados e só por violação dos Direitos do Homem, previstos na Convenção Europeia. Mas em Setembro de 2018, surge de novo, nos jornais britânicos, a ideia de que a queixa dos McCann junto do TEDH irá conduzir a essa confrontação, numa absoluta distorção da realidade e das competências do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. O “Daily Mail” repete essa falsa hipótese, ao afirmar, em 18 de Setembro de 2018, que “o casal [McCann] irá confrontar Gonçalo Amaral no Tribunal Europeu [dos Direitos do Homem]. “The Sun”, a 4 de Novembro de 2018, escreve que “Kate e Gerry estão actualmente a desafiar Gonçalo Amaral, no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para o impedir que continue a lucrar [com o caso Maddie].”



PJ: “Porcos”, “palhaços” e “incompetentes”

A Polícia Judiciária também não é poupada, na Imprensa britânica. Os polícias portugueses eram “uns imbecis”, afirmou Gerry McCann, em 17 de Setembro de 2007, citado pela irmã, Philomena McCann, no programa “This Morning”, da ITV1. Entrevistada poucos dias depois de os McCann terem sido constituídos arguidos, a irmã de Gerry afirmou: “O meu irmão diz-me para não antagonizar esta gente. A investigação está nas mãos deles, temos que trabalhar com essa gente, são a nossa melhor esperança. Tem que se ser muito 'político' em relação ao que se diz sobre eles, mas está na altura de tirar as luvas, estes tipos são imbecis”. Poucos dias dias antes, a 7 de Setembro, num “Larry King Live” da CNN, um amigo próximo depuis quand? de Gerry McCann, Ed Smart, norte-americano e pai de uma jovem desparecida que foi encontrada nove meses depois, citava uma conversa telefónica com o pai de Madeleine onde este acusava suspectait a Polícia Judiciária de ter “plantado” provas contra o casal, no carro que alugaram várias semanas depois de Maddie desaparecer: “Eu não ficaria surpreendido se eles [a polícia portuguesa] 'plantassem' provas no carro”, afirmou Gerry McCann, de acordo com Ed Smart. No dia 9 de Setembro, numa entrevista ao “News of The World” o casal alega estar “a lutar pelas próprias vidas”, como se estivessem na iminência de ser colocados diante de um pelotão de fuzilamento e acusa a PJ de querer colocar um fim rápido ao caso, fazendo deles um bode expiatório porque “[a polícia portuguesa] estava a ficar sem dinheiro [para continuar a investigação]”.

Outros jornais não pouparam a PJ, acusando os seus responsáveis de lançarem uma “campanha difamatória” contra os McCann, deixando “cair insinuações torpes” junto da Imprensa portuguesa. Os investigadores da PJ eram uns “palhaços”, “cruéis”, “asquerosos”, “porcos” e ”incompetentes”, um “bando de amadores estúpidos” que fizeram uma “investigação desastrosa”. “Bófias arrogantes (“swaggering plods”, um termo de calão britânico), “labregos antipáticos” (“lumbering yokels”, outro termo de calão), “corruptos” e “tendenciosos” foram outros adjectivos utilizados. Na investigação que levaram a cabo, “provas cruciais foram ignoradas”, “semanas foram desperdiçadas” e a “investigação foi um caos”. Neste rol de insultos, destaque para o colunista do “The Mirror”, Tony Parsons, que em 16 de Janeiro de 2010, chama uma série de nomes aos polícias portugueses: “palhaços”, “cruéis”, “estúpidos” e “asquerosos”. Trata-se do mesmo colunista que, em 29 de Outubro de 2007, tinha mandado o embaixador português no Reino Unido “apanhar no **”, aconselhando-o a “manter calada a sua estúpida boca de comedor de sardinhas”.

A expressão “Keystone Cops” foi usada várias vezes pela Imprensa britânica, para caracterizar a Polícia Judiciária. Trata-se da designação pela qual ficou conhecida uma série de filmes cómicos, ainda do tempo do cinema mudo, realizados entre 1912 e 1917, e que teve grande sucesso. Os filmes retratam uma esquadra de polícias absolutamente incompetentes e ridículos, incapazes de cumprir qualquer missão, à semelhança dos polícias que, afincadamente, perseguem Charlot, nos seus filmes, sem nunca o conseguirem apanhar. O termo ficou na memória colectiva dos britânicos, que ainda hoje o usam para designar um determinado grupo que cometa erros flagrantes e demonstre uma enorme falta de organização, não obstante a energia que aplicam na sua actuação – no râguebi e no futebol, por exemplo, ainda hoje é frequente os comentadores usarem a frase “Keystone Cops defending” para descreveram um falhanço inacreditável da defesa de uma equipa, que permite um ensaio ou um golo à equipa adversária. O “Daily Mirror” refere, num artigo de 19 de Agosto de 2007, que “amigos dos McCann” consideram haver o risco de a polícia portuguesa “parecer igual aos polícias de Keystone”, devido à forma como a investigação estava a ser conduzida. A 19 de Agosto de 2007, “The Mirror” escreve que “a polícia portuguesa encarregue de procurar Madeleine tinha sido apelidada de 'polícias de Keystone', por polícias britânicos, chocados com as suas pavorosas asneiras [na investigação do caso]”.

O “Liverpool Echo” de 22 de Julho de 2008 faz uma longa diatribe contra a polícia portuguesa, classificando a sua actuação como “calamitosa” e acusando-a de dar à Imprensa portuguesa “'dicas' devastadoras e negativas, que nada resolviam”. “Há muitas vítimas inocentes daquilo que tem sido comicamente designado por 'investigação' acerca do desaparecimento de Madeleine McCann”, escreve o jornal, que cita ainda o pai de Kate McCann: “Julgo que o palhaço Charlie Cairoli deve ser o responsável pela investigação”. O “Belfast Telegraph”, já em 2 de Maio de 2017 volta às mesmas acusações, numa retrospectiva do caso, referindo que, “para muita gente, eles [os polícias portugueses] comportaram-se mais como 'polícias de Keystone' do que como polícias profissionais”. “The Guardian” de 27 de Junho avança com uma das mais absurdas acusações à PJ, afirmando que a polícia portuguesa, em desespero de causa, sem conseguir resultados da investigação, decidiu seguir pistas dadas por “centenas de 'adivinhos' qeu afirmavam ter informações sobre Madeleine”. Um dos mais fantasiosos relatos, crítico quanto à actuação da polícia portuguesa e também na mesma linha da notícia do “The Guardian”, surge no periódico “The People”, um tablóide de baixa categoria, diga-se de passagem. Na sua edição de 19 de Agosto de 2007, o jornal escreve que a PJ, desesperada com o facto de não obter resultados na investigação, decidiu recorrer à ajuda de adivinhos e “médiuns”, pedindo-lhes que dessem “pistas” para a localização de Madeleine McCann. De acordo com “The People”, “16 agentes da PJ seguiriam, durante duas semanas”, essas alegadas pistas. Um dos tais adivinhos teria indicado à polícia que Madeleine McCann se encontrava dentro de um poço, num local não identificado, no Algarve. “Os polícias atiraram uma pedra para dentro do poço, para testar a bizarra pista, sem pensar que poderiam ferir Maddie, caso ela lá estivesse”, escreve Rachael Bletchly, nessa edição do “The People” - como se fosse possível uma criança de três anos, desaparecida há vários meses, aparecer de repente dentro de um poço, viva e de boa saúde.

As informações falsas sobre o tempo de resposta da GNR, depois de um funcionário do Ocean Club ter telefonado, cerca das 10h50 41 da noite, para o quartel de Portimão non, au poste de la GNR de Lagos, são inúmeras, nos media ingleses e surgem com várias versões. O “Daily Mail” de 11 de Agosto de 2007 alega que “[a polícia] só chegou duas horas depois de o alarme ter sido dado”. No dossier da investigação, distribuído aos jornalistas do final de 2007, estão, no entanto, os relatos pormenorizados dos dois miliatres da GNR que primeiro chegaram ao local, cerca de 20 minutos depois do telefonema – o tempo necessário para percorrer a distância entre Portimão e a Praia da Luz. Mais ils patrouillaient vers
Odiáxere. No mesmo artigo, repete-se uma prática habitual dos media britânicos – citar fontes da sua própria polícia, não identificadas – para afirmar que “um especialista em casos de crianças desaparecidas, que visitou o 'resort' alguns dias depois do desaparecimento, disse que aquela era a cena de um crime pior preservada que ele tinha visto”. O jornal adianta ainda, numa clara distorção da realidade, que “se julga que cerca de vinte pessoas – incluindo trabalhadores do 'resort' e outros turistas – terão entrado no apartamento dos McCann depois do desaparecimento [de Maddie]. É um facto que é verdadeiro, mas aconteceu muito antes do próprio telefonema para a GNR ter sido feito.

Logo a seguir a ter sido dado o alarme, por volta das nove dez c'est du moins ce que les TP9  prétendent da noite, dezenas de funcionários do Ocean Club e outros turistas ali residentes acorreram ao apartamento, com o objectivo de ajudar. O facto é que, quando a GNR chegou ao local, mais de uma dezena de pessoas, incluindo os sete amigos dos McCann, se encontravam dentro do apartamento. E, tal com está claramente referido nos autos da investigação, uma das primeiras decisões dos dois agentes da GNR, depois de se terem inteirado minimamente da situação, foi ordenar a todos que saíssem, impedindo, a partir daí, que mais alguém ali entrasse. Non, malheureusement, ce sont les OPJ qui ont fait sortir, un peu plus tard. Numa versão mais “trabalhada”, o Herald Scotland amplia a hora da chegada da polícia, num artigo publicado a 10 de Maio de 2011: “(...) os McCann chamaram a polícia e depois disso tiveram que esperar até à uma da manhã antes que os investigadores chegassem.”

O “Daily Mirror”, na sua edição de 14 de Outubro de 2013, regressa à comparação com os polícias da série cómica já referida: “A polícia local, uma vez informada, fez com que os 'polícias de Keystone' parecessem Poirot. Não encerraram a fronteira, que ficava próximo [da Praia da Luz], não vigiaram os portos, andaram por todo o apartamento e deixaram cair cinza [dos cigarros] no tapete [do apartamento]. Graças ao 'CSI Praia da Luz', qualquer sinal de intrusos foi perdido, as primeiras cruciais horas, durante as quais Madeleine poderia, mais provavelmente, ser encontrada, foram desperdiçadas e embora tivessem recolhido dados dos telefones móveis, não se preocuparam em analisar devidamente esses dados”. O pormenor da cinza dos cigarros é referido também pelo “Daily Mail”, que cita o “Daily Mirror”. Nestas duas referências é dada uma nova dimensão à capacidade laboratorial de análise de provas forenses, quando este último jornal salienta que “o apartamento foi contaminado com cinza proveniente de cigarros dos polícias portugueses”. Se a hipótese das análises forenses de amostras de material recolhido no apartamento terem revelado a existência de cinza de cigarros é perfeitamente normal, já a ideia de que essas mesmas análises teriam provado que a cinza era proveniente de cigarros fumados por polícias portugueses ultrapassa as fronteiras do absurdo.



Os ex-polícias britânicos que ajudaram a destruir a reputação da Polícia Judiciária

Dai Davies, já reformado, e que foi, durante dez anos, responsável máximo pela segurança da Casa Real Britânica (um dos cargos mais importantes na polícia britânica, comandando um efectivo de 450 homens altamente especializados e treinados, com um orçamento de 46 milhões de libras) veio de Inglaterra e foi almoçar, propositadamente, ao Restaurante Tapas. Escreveu depois um artigo de opinião no “Sunday Mirror”, em 23 de Setembro de 2007, onde arrasa a investigação da PJ e diz ter ficado “espantado” ao ver como o restaurante ficava “tão próximo” do apartamento (cerca de 150 metros, a pé e sem qualquer visibilidade do apartamento, note-se). Para além de Dai Davies, mais de uma dezena de outros ex-polícias, todos eles com um curriculum apreciável e tendo desempenhado altos cargos na polícia britânica, deram entrevistas, escreveram artigos, alguns viajaram até Portugal, tirando sempre a mesma conclusão: a PJ foi completamente ineficaz e incompetente, cometeu erros grosseiros e inaceitáveis, “destruiu” as hipóteses de a investigação ter sucesso, com a sua actuação logo nas primeiras 24/48 horas.

Dai Davies, um homem que, ao longo da sua carreira e mesmo depois de reformado, nunca deu uma entrevista nem falou uma única vez com jornalistas, como me salientou um colega inglês, retoma, no artigo de opinião do “Sunday Mirror”, as mesmas acusações falsas que já circulavam, pelos media britânicos e que se vão manter ao longo dos anos: o apartamento não foi devidamente selado, a recolha das amostras no carro alugado, semanas após Maddie ter desaparecido, não foi feita de forma correcta “devido a incompetência da própria polícia [portuguesa]”, etc. Dai Davies avança, inclusivé, com quatro teses sobre quem poderia ter raptado a criança: um “pedófilo oportunista (…) que apenas pretendia abusar dela mas teria entrado em pânico, estrangulando-a e levando o corpo; um rapto “planeado no Reino Unido (…) por encomenda de um gang pedófilo”; alguém que tinha algo contra os McCann e por último, a hipótese de Maddie ter sido raptada por um casal português sem filhos. O ex-polícia britânico não fundamenta nem dá pormenores sobre evetuais factos que o terão levado a colocar estas hipóteses.

Mark Williams-Thomas é outra figura de relevo, nesta galeria de antigos polícias britânicos que tudo fizeram para denegrir a investigação da PJ. Comentador de serviço da Sky News, foi chamado para dezenas de intervenções naquela estação de televisão, com os comentários mais diversos sobre o caso, mas sempre negativos para a polícia portuguesa, à qual chamava, repetidamente “incompetente” e “ineficaz”. Curiosamente, Mark Williams-Thomas, já reformado, era também o proprietário e director-geral de uma empresa de consultadoria, especializada na gestão de casos mediáticos e no “planeamento ou revisão de políticas empresariais de gestão de crises nos media”. Depois de eu ter apresentado uma queixa junto do Ofcom, o organismo regulador e fiscalizador das televisões britânicas, devido a uma possível situação de conflito de interesses, não revelada publicamente - uma vez que ele era sempre e apenas apresentado como ex-polícia - e ter questionado a direcção editorial da Sky News sobre se tinha conhecimento destas ligações empresárias de Mark Williams-Thomas, o comentador desapareceu dos noticiários daquela estação televisiva.

Outro ex-polícia britânico, Desmond Thomas, antigo responsável pela polícia de investigação criminal de Hampshire, também veio a terreno, por volta de Setembro, depois dos McCann terem sido constituídos arguidos. Com a escassa informação disponível, numa altura em que o dossier da investigação não tinha sequer sido distribuído aos jornalistas portugueses, Desmond Thomas sai em defesa do McCann, considerando, num artigo do “Daily Star”, QUAND ? que seria muito difícil haver qualquer acusação no caso, uma vez que a polícia portuguesa “não tinha nem corpo nem arma”. O mesmo ex-polícia arroga-se o statuto de especialista na área jurídica e afirma, premptoriamente, que “o sistema judicial português precisa de uma reforma urgente”.                                        

Um “peso-pesado” que também intervém neste “bota-abaixo” da polícia portuguesa é Lord Stevens, um ex-chefe da Scotland Yard, consultor do primeiro-ministro Gordon Brown para assuntos de segurança internacional. Uma série de jornais britânicos reproduz um artigo de opinião seu, publicado na edição de 20 de Outubro de 2007, no “News of The World”, onde começa por colocar, em título: “Os pais de Maddie estão inocentes” e “são vítimas de uma 'caça às bruxas”. Lord Stevens “vira o disco e toca o mesmo”, por assim dizer, com idênticas acusações falsas que já tinham sido feitas à polícia portuguesa: o apartamento não foi selado, a investigação “começou de forma desastrosa”, foi uma “farsa”, falhou na detecção de qualquer prova e as alegadas provas de culpa dos McCann são “simplesmente ridículas”. O artigo repete, mais do que uma vez, a convicção do seu autor de que os McCann estão completamente inocentes: “não há nem uma pequena réstia de prova que justifique acusar os McCann”, fazê-lo “seria um flagrante erro de Justiça”, “os pais de Madeleine McCann nunca poderiam ser acusados do seu homicídio neste país [no Reino Unido]”.
De uma forma geral, os “erros grosseiros” apontados num dos primeiros ataques dos media britânicos à polícia portuguesa – o artigo do “Daily Mirror”, de dia 9 de Maio – passaram a ser a cartilha pela qual leram, até hoje, praticamente todos os jornais britânicos e a quase totalidade dos comentadores, nomeadamente os ex-polícias britâncios que tão afincadamente deram o seu contributo para denegrir a Polícia Judiciária.



“Daily Mirror”: do elogio à crítica feroz em poucos dias

Nos dias 4 e 5 de Maio, os artigos publicados pela Imprensa britânca, nas edições online e em papel, são extremamente elogiosos em relação à actuação da polícia portuguesa. A partir de dia 6 de Maio, a realidade, descrita pelos media britânicos é totalmente oposta. O melhor exemplo desta inflexão é dado por dois artigos do “Daily Mirror” (publicados nos dias 5 e 9 de Maio), ambos co-assinados por Martin Fricker, que estava na Praia da Luz desde o dia 5.

Na sua primeira versão, num artigo intitulado “MADDY, 3 ANOS, DESAPARECEU”, assinado por Martin Fricker (na Praia da Luz) e Rod Chaytor, o “Daily Mirror” de dia 5 de Maio descreve pormenorizadamente, o que ali se passava: “Uma grande busca estava em curso, ontem à noite, para encontrar Maddy McCann, de três anos, que se receia ter sido raptada do seu apartamento de férias. (...)”. “Numa busca de 24 horas efectuada pela polícia, centenas de moradores e turistas britânicos, não foi possível encontrar nenhum vestígio da criança (...) As persianas das janelas, fechadas desde que chegamos no sábado, estavam abertas junto à janela. Essas persianas podem ser abertos do lado de fora. (...) A administração da Mark Warner negou que houvesse sinais de entrada forçada no apartamento, alegando que, em vez disso, as persianas tinham sido puxadas para cima e a janela do quarto aberta. (...)”. “O gerente do resort, John Hill, disse que cerca de 60 funcionários e hóspedes tinham procurado [a criança] até às 4h30 da madrugada de ontem, enquanto a polícia contactava as autoridades de fronteira, os agentes policiais e aeroportos espanhóis vizinhos. (...) Hill disse: "Foi uma noite muito emocional e frenética e todos fizeram um trabalho fantástico, ao envolverem-se nas buscas, nesta área. Há aqui um investigador criminal e cerca de 20 polícias, mas infelizmente ainda não há informações. (…)”. “Os polícias fecharam o prédio de cinco andares com fitas de cena do crime e tiraram impressões digitais das persianas e do peitoril da janela do lado de fora do quarto de Maddy. Um pátio nas traseiras do quarteirão, que estará ligado ao apartamento de dois quartos da família, também foi selado. Uma equipe especial de investigação criminal da Policia Judiciária está a caminho, vinda de Lisboa. Jo Wheeler [apresentadora do boletim meteorológico da Sky News, que reside na Praia da Luz] disse que a polícia local está a fornecer mapas aos voluntários [que querem ajudar nas buscas]: "Está tudo muito bem organizado", afirmou. 

Três dias depois, a 9 de Maio, o “Daily Mirror” avança com uma versão completamente oposta, publicando uma lista de erros cometidos pela polícia nas busca do rapto de Maddie. Martin Fricker assina este mesmo artigo, em co-autoria com Stewart Maclean, na Praia da Luz, “Daily Mirror”, 09/05/2007). O artigo coloca no topo da lista uma informação totalmente oposta àquela que tinha dado aos seus leitores, no dia 5 de Maio, quando referiu que todo o edifíco de cinco andares tinha sido selado pela polícia: “Os polícias não conseguiram isolar o apartamento de onde Maddie foi retirada assim que chegaram. Surpreendentemente, outros turistas foram autorizados a passear pela cena do crime até 24 horas depois - potencialmente destruindo pistas e contaminando provas forenses”. O terceiro erro apontado é, pura e simplesmente, ridículo: “Os funcionários do posto fronteiriço [entre Portugal e Espanha] não foram alertados até 12 horas após o sequestro, o que significa que o raptor poderia ter fugido para Espanha - apenas a uma hora de carro do complexo de férias na Praia da Luz, no Algarve”. Em 2007, já não existia aquele posto fronteiriço, há vários anos, na sequência do acordo de Schengen. Os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras apenas têm um gabinete, o “Centro de Cooperação Policial e Aduaneira de Castro Marim”, a cerca de três quilómetros da A22, a auto-estrada que vai de Lagos até à fronteira com Espanha.

Esta falsa acusação do “Daily Mirror” é repetida também pelo jornal “The Independent”, na sua edição de 12 de Maio, que salienta o facto de a A22, a auto-estrada para Espanha, ficar apenas a 10 minutos da Praia da Luz. “A conduzir depressa, a fronteira espanhola fica a 90 minutos. A fronteira poderia ter sido fechada a tempo, caso a polícia [portuguesa] tivesse ficado alertada pelo telefonema preocupante do Ocean Club”. O quinto erro é, para além de uma flagrante contradição com aquilo que foi escrito rês dias antes, uma avaliação completamente infundada da mobilização feita pela GNR e pela PJ, desmentindo-se a si próprio: “Em vez de reunir uma enorme força de agentes para procurar Maddie, apenas 150 polícias estavam envolvidos nas buscas iniciais, mal organizadas. A inspecção de cerca de 500 apartamentos só começou no domingo.” A 5 de Maio, o mesmo jornal e o mesmo jornalista, Martim Fricker, citavam Jo Wheeler, apresentadora do boletim meteorológico da Sky News, que reside na Praia da Luz, elogiando a forma como decorriam as buscas: "Está tudo muito bem organizado".

Por outro lado, criticar a mobilização, por parte da GNR, de perto de centena e meia de agentes - “apenas”, como refere o texto - em menos de 48 horas, é revelador de uma distorção de própria realidade. Mesmo no Reino Unido, em zonas mais densamente povoadas, uma mobilização desta dimensão seria considerada suficiente. No caso da GNR foram, inclusivé, canceladas férias e folgas dos agentes colocados no Algarve e foram até chamados agentes de quartéis situados no Alentejo. Os restantes erros apontados têm a ver, essencialmente, com práticas diferentes da polícia britânica e da polícia portuguesa, em casos deste género. Um pormenor apontado no décimo e último erro será um tema recorrente, nos Media britânicos, revelador também de uma abordagem distorcida na cobertura do caso.

O “Daily Mirror” refere que “a polícia portuguesa mantém um muro de silêncio, alegando que a lei do segredo de Justiça os impede de revelar detalhe sobre a investigação.” A polícia britânica, tal como a sua congére portuguesa, nunca revela publicamente detalhes de uma investigação em curso. Mas sempre que há um caso mais mediático, os britânicos enviam um responsável, que entretém os jornalistas, durante alguns minutos, com declarações completamente vagas, do género “as investigações prosseguem em bom ritmo”, “temos xxx polícias empenhados nessas investigações”, etc, etc. Este tipo de prática dá às televisões os seus 30 segundos de imagem e permite que os jornalistas tenham meia-dúzia de frases para “compôr” os seus artigos. Não há, em termos substanciais, nenhuma diferença entre a chamada lei do segredo de Justiça, em Portugal e a legislação e práticas da polícia britânica, no que diz respeito à informação a fornecer aos jornalistas, sobre casos cuja investigação esteja em curso.

No entanto, todos os media britânicos pegaram nesta questão do segredo de Justiça, como se fosse uma prática absurda e própria de um país meio-atrasado, ignorando – ou fazendo de conta que ignoravam - o facto de a sua própria polícia ter exactamente o mesmo tipo de procedimento. Como leitor regular dos jornais britânicos e espectador assíduo das televisões britânicas, nos canais por cabo, acompanhei vários dos casos mais mediáticos, de crimes que atraíram a atenção da opinião pública, no Reino Unido – entre eles, por esemplo, os chamados “Assassínios de Soham”, quando duas jovens de 10 anos de idade, Holly Wells and Jessica Chapman, foram encontradas mortas, naquela localidade. Lembro-me perfeitamente da “estrela” nº1 do jornalismo, na área do crime, Martin Brunt, da Sky News, ter feito dezenas de directos, a partir de Soham, apenas a “encher chouriços”, como se diz em gíria jornalística quando não há nada de novo a relatar, mas é preciso dizer ou escrever alguma coisa sobre o assunto.
A pressão dos jornalistas britânicos levou a Polícia Judiciária a designar, pela primeira vez na história daquela instuição, um porta-voz para caso, o coordenador-criminal Olegário de Sousa, regularmente “massacrado” pelos Media do Reino Unido, por não lhes dar mais do que aquilo que a sua própria polícia lhes dava, em casos semelhantes.



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